Com que ouvidos?


Com curadoria assinada por Karen Worcman e Ailton Krenak, entre as tradicionais partilhas do Museu da Pessoa, a exposição evoca a percepção da memória não como simples passado, mas como presença. Propondo um encontro entre identidade e escuta, lembra que patrimônio imaterial é toda produção humana intocada — aquilo que vive nas histórias antes de virar ruína.


No dia 27 de fevereiro de 2026, no Museu do Estado do Pará, Belém recebeu a exposição promovida pelo Museu da Pessoa — instituição dedicada a preservar histórias de vida e memórias coletivas — chamada Você já escutou a Terra?. A OCAS (Organização Comunitária de Adesão Social) marcou presença no evento cultural, que contou com dança, culinária e arte. Pioneira no processo de recrutamento das costureiras do cenário e responsável pela realização do show “Amazônia Viva”, a OCAS segue causando impacto por meio da arte e da compreensão. Planejada por Bia Saghaard, a exposição nos convida a criar compaixão para além do plano cultural de cada indivíduo.


É com muito prazer que eu, Anna Cavalcante, me apresento como articulista juvenil da Ocas e garanto: você não sai igual de Você já escutou a Terra?. Espero que os demais visitantes tenham tido uma experiência tão sensível quanto a minha e que tenham passado a perceber o que está diante de nós — aquilo que fingimos não ver.

O “Amazônia Viva”, idealizado por Renato Rosas, é um espetáculo que celebra a força da cultura amazônica por meio da música, da memória e da ancestralidade. No palco, o artística apresenta um mergulho sonoro que une banjo de carimbo, flauta andina, guitarradas e ritmos tradicionais como retumbão, lundú, marabaixo, carimbó e muito mais, valorizando o cancioneiro caboclo e os saberes indígenas, quilombolas e ribeirinhos. O repertório traz composições como “Festa do Moqueado”, em parceria com Bira Tembé, “Praia da Curvina”, “Folia para Nossa Senhora do Socorro” com mestre Nazaco Gomes, “Feira do Açaí”, “Pandeiro” com mestre Ronaldo Silva, “Morena” e “Carimboleira”, além de canções como “Tekoá” que narram vivências culturais do artista em conexões internacionais com Jair Oliveira. Mais que um show, “Amazônia Viva” é um manifesto político-social pela valorização da natureza, das comunidades tradicionais e da identidade amazônica, transformando o palco em território de resistência, celebração e pertencimento.

Desde Parmênides até Platão, discute-se que a percepção sensorial pode diferir da verdade. Pergunto-lhes: quanto de nós realmente nos pertence? Qual será o alcance dos nossos sentimentos a partir dos nossos sentidos?
“É simples: os de escuta.” Essa foi a resposta evocada por Bia Saghaard ao questionar como devemos usar nossos ouvidos para compreender a realidade do planeta. Quando tudo no nosso cotidiano se torna insistência, torna-se difícil ouvir nossos instintos.
Entre os diferentes fusos horários do mundo, ainda existem momentos de escuta: assistir às nuvens cinzas chegando, contemplar os pássaros que denunciam predadores e perceber a paz que se instala nas correntezas.


Mas nós aprendemos a ignorar esses sinais — como quem tapa os ouvidos diante de um aviso incômodo.
Em uma das instalações, depoimentos de diferentes pessoas foram retratados na transparência de tecidos espalhados pelo espaço, acompanhados por sons e vídeos da vida acontecendo, criando a sensação de que a própria terra falava por meio das memórias humanas.


O pontapé de Ailton Krenak dialoga com reflexões como as de Bruno Latour em suas teorias sobre a separação moderna entre natureza e humanidade: natureza intocada é uma mitologia.


Quem não tem uma história com a natureza para contar? Quem não escuta a terra hoje talvez escute o desastre amanhã.


Transformar uma experiência sensorial em uma exposição palpável não é para qualquer um. Mas, felizmente, está cada vez mais acessível para todos nós.
Demonizamos os restos que podem ser recomeço. Transformamos aviso em ruído. Transformamos alerta em estatística.
Hoje, restam entre 12% e 16% da Mata Atlântica original. Enquanto isso, a Amazônia perdeu cerca de 50 milhões de hectares de floresta nos últimos quarenta anos.


Talvez a terra já esteja falando há muito tempo.
Talvez o problema nunca tenha sido o silêncio.
Talvez o problema sejamos nós.


Esses números não são apenas estatísticas: são silêncios da terra que deixamos de escutar. São ausências que continuamos chamando de progresso.
Ouvir é um brado para que não se perca mais vida.


Fotografia, cinema, imersão auditiva — e minha pergunta leiga: a exposição tinha cheiro?
Senti terra molhada.
Música, história e trabalhos manuais. Tudo isso para nos ensinar que somos parte, e não o centro. Que não são só corações que pressupõem vidas.


A vida no centro.


Leitor, nem que eu te conte tudo, você vai entender. Mas preservo sua possível experiência e aqui me despeço. Meu relato não é um terço desse trabalho.
Esse trabalho não é um décimo do que nossos ouvidos podem distinguir.


Mas, antes de ir embora, deixo uma última suspeita:
Talvez a pergunta da exposição esteja errada.
Talvez a pergunta não seja “Você já escutou a Terra?”.
Talvez a pergunta seja por que ainda escolhemos não escutar.


Escute.

 

 

Agradecimentos
Destaco meu profundo agradecimento ao Museu da Pessoa pelo apoio e inspiração. Estendo também minha gratidão aos patrocinadores Petrobras, ao Ministério da Cultura e ao Governo do Brasil, bem como ao apoio do BNDES e aos mecanismos de incentivo cultural proporcionados pela Lei Rouanet.
Agradeço ainda à Organização Comunitária de Adesão Social e a todos os demais envolvidos que contribuíram para a realização e fortalecimento desta iniciativa cultural. É uma honra compartilhar essa experiência tão enriquecedora.

Comentários (24)
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  • A
    AROLDO CARNEIROAbril 2026
    Texto muito bem escrito, e de agradável leitura, parabéns.
  • Y
    Yasmim OliveiraMarço 2026
    Escrita sensível, e percepção encantadora! Cada palavra descreve com maestria um pouco do que senti quando visei a exposição. Parabéns!
  • J
    Jadilson NevesMarço 2026
    Excelente! Palavra curta que espressa a necessidade urgente, de um mundo que grita por socorro! vejo um texto que buscar atingir aqueles que tem o poder de fazer algo hoje! Nossos governantes. Ver pessoas tão jovens engajadas em salvar o mundo traz a mim esperança que viveremos um futuro diferente!
  • K
    Kauê CruzMarço 2026
    Parabéns pelo trabalho e pela sensibilidade no texto. É bonito ver iniciativas que valorizam memória, cultura e identidade sendo apresentadas com tanta dedicação. Muito sucesso em tudo que ainda vem pela frente.
  • J
    Junior FonsecaMarço 2026
    Nossa!! parabéns
  • M
    Maria LuizaMarço 2026
    👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
  • J
    Jomário Ribeiro SoaresMarço 2026
    Texto extremamente coeso. Parabéns!
  • S
    Selma MachadoMarço 2026
    Visitei a Exposição e "ouvi a Terra", pura emoção e encantamento.
  • E
    Elizangela Carvalho TenórioMarço 2026
    Sucesso!! Siga sempre em frete
  • R
    RaíssaMarço 2026
    Que artigo encantador!
  • R
    Rafael DantasMarço 2026
    incrível! dá vontade de sentir tudo isso de perto. parabéns pelo trabalho!
  • Y
    Yasmim lima SilvaMarço 2026
    Caraca, sem palavras pra dizer o quanto é necessário falar sobre isso, eu ameiii o artigo!
  • R
    Rômulo AmorasMarço 2026
    Parabéns pelo artigo! Muito bom ver uma reflexão tão sensível e bem colocada sobre a relação entre o ser humano e a Terra. Seu texto demonstra maturidade e consciência ambiental. Continue escrevendo Princesa!
  • V
    ViniciusMarço 2026
    Artigo muito explicativo, parabéns!!!
  • O
    Olenita Paes BarretoMarço 2026
    Texto perfeito. Muito sensível e ao mesmo tempo forte para o que tem que ser observado e vivido. “ Quem não escuta a terra hoje talvez escute o desastre amanhã.” Um sacolejo de consciência.
  • O
    Olenita Paes BarretoMarço 2026
    Texto perfeito. Muito sensível e ao mesmo tempo forte para o que tem que ser observado e vivido. “ Quem não escuta a terra hoje talvez escute o desastre amanhã.” Um sacolejo de consciência.
  • M
    MartaMarço 2026
    Perfeito , de muitíssima importância! “Quem não escuta a Terra hoje, talvez escute o desastre amanhã “
  • S
    Sophia CastroMarço 2026
    Que olhar sensível, Anna! Espetacular. Fiquei encantada. Parabéns!
  • R
    RAFAEL HENRIQUE MAIA BORGESMarço 2026
    Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja fazer a Terra falar, mas reaprender a escutar. Parabéns pelo texto, Anna!
  • R
    RAFAEL HENRIQUE MAIA BORGESMarço 2026
    Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja fazer a Terra falar, mas reaprender a escutar. Parabéns pelo texto, Anna!
  • C
    Claudia SidonioMarço 2026
    Um texto lindo, que nos traz uma reflexão enorme, precisamos parar e escutar os sinais que a natureza nos traz a todo momento. Me chamou atenção um dado estático do que ainda nos resta de floresta, nos faz repensar em como podemos fazer parte das nossas escolhas futuras. Parabéns Anna Cavalcante!!!
  • V
    VictoriaMarço 2026
    Eu amei!
  • c
    cecília torresMarço 2026
    nunca li artigo tão lindo e bem escrito, você tem um talento único! parabéns minha amiga por ser tão dedicada, amorosa, cuidadosa em tudo o que faz… você merece tudo de melhor da vida, espero que esse artigo alcance muitas pessoas❤️
  • N
    Noronha JuniorMarço 2026
    Iniciativa espetacular, mais uma vez a OCAS representando nossa região de forma admirável