A revolução do afeto

Da delicadeza da hospitalidade, surgiu o primeiro intercâmbio cultural ribeirinho do mundo. 

Como diria Liniker com seus búfalos do Marajó “gota que é mar”. Afinal, é das sutilezas do afeto que nascem as verdadeiras transformações.

Conectada à Organização Comunitária de Adesão Social (OCAS) durante a COP30, a presidente confederacional Dila Sol Nascente vivenciou, junto à sua filha e presidente do Instituto Mateus, a essência do "paraense raíz". Ali, o aprendizado valeu farinha baguda, açaí com peixe frito, passeio no Ver-O-Peso e banho de rio que faz escapar o "égua!". A essa imersão, chamamos de Intercâmbio Cultural: o choque da diversidade; a divergência sem atrito. Das linguagens do amor, o susto! 

Mais tarde, a inevitável paixão pelo Pará mandou um convite especial ao presidente da OCAS: a primeira imersão ribeirinha dentro da maior favela do Brasil. Dila, que esteve presente na maior conferência climática do mundo, sentiu a urgência de dividir seus aprendizados. Então, sob o calor de Sol Nascente, no Distrito Federal, Renato Rosas corroborou o processo de enculturação, levando a arte para o coração das comunidades. 

À querida Dila: o amor é recíproco, nós amamos a sua terra! Brasília é extrósima, como descreve Clarice Lispector, é o termo perfeito para essa capital repleta de jornalismo, política e história - uma cidade que merece conto e também artigo. 

Nesse encontro, a tradicional escola de samba Águia Imperial abriu alas para o nosso carimbó. Brasília se preencheu com os presentes amazônicos, palestras socioambientais e rodas de reflexão sobre saúde integrativa, conectando-se a uma periferia caribenha e quilombola, repleta de encantarias e do imaginário das florestas do norte. 

Da leveza da flauta andina, evocou-se a ancestralidade que revela o foco do nosso movimento, o oxigênio da OCAS: o poder da arte. 

Como comprova Schopenhauer, as dores do mundo nos conduzem quase logicamente ao caos e à infelicidade. Sendo o mundo nosso lar, cabe a nós modificá-lo. Não pela arte promovida por meio da inteligência artificial ou a partir de produtos das  tendências midiáticas, mas aquela que leva o homem a transcender a consciência de ser consciente. Nossa natureza não é a selvageria, a violência ou o retrocesso; nossa essência é a decisão, a história, a racionalidade e, acima de tudo, o afeto.

O cafuné e os abraços residem em abrir as portas, ouvir com paciência e dosar as palavras; em tornar acessível ao mundo o frescor quente do ar nortista. 

Renato e Dila se uniram com um propósito: empoderar a periferia. O objetivo é simples, mas está longe da facilidade. O que, finalmente, é visto pelo mundo sobre a população brasileira é a inovação na moda, no carnaval, na comida, na música é, na realidade, cultura milenar! O reflexo do gênese nacional, seja nas capitais ou nas favelas, é o destaque através da arte. 

O peso dos dedos e o estudo das especiarias é o que lhe convoco a valorizar. No Brasil, mobilidade é visto como privilégio. As camadas de maior renda, que concentram o hábito de viajar, frequentemente direcionam seus deslocamentos para fora de seus próprios territórios. No Norte, onde a infraestrutura cultural e turística ainda é historicamente subfinanciada, esse movimento se intensifica: não apenas se viaja mais, mas se viaja para longe. Nesse processo, o território de origem deixa de ser espaço de descoberta e passa a ser apenas ponto de partida. O resultado é uma elite que, muitas vezes, conhece com mais intimidade outros lugares do que o próprio chão, cuja relação com a cultura local se torna rarefeita. Não há de esperar que as férias cheguem, podemos começar agora a conhecer nossa própria cultura, por eventos como o “Você já escutou a terra?”. 

A apresentação da gastronomia paraense envolvendo o açaí, a bacaba, a pupunha, o cacau 100% e o mel da OCAS foram o primeiro passo para a diferença envolvendo o comércio local e o reconhecimento dos trabalhos periféricos. O dia 8 de março de 2026 foi marcado pelo forte evento e marcou a nova fase da OCAS com o propósito de elevar a reflexão sobre ancestralidade e a infraestrutura de reflorestamento através do conceito Ecos de ecologia, sustentabilidade e trabalho coletivo. 

Desde o "Com que ouvidos?", muita coisa já mudou - e muito mais há de mudar. Sendo assim, bem-vindos mais uma vez.

Pela consciência coletiva, Ecos.

Comentários (17)
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  • P
    Patricia Lima de AlmeidaAbril 2026
    Só orgulho dessa menina que incorpou a alma amazônica
  • J
    Jorge GomesMarço 2026
    Grande artigo! De estremo aprendizado👏🏼👏🏼
  • L
    Laudelina Ribeiro SoaresMarço 2026
    Uauuuu PARABÉNS!!!! Excelente Artigo👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
  • K
    KÁSSIA MANUELAMarço 2026
    Excelente artigo. Muito bem escrito e interessante. Parabéns pelo seu desempenho.
  • K
    Kathya Gibson PantojaMarço 2026
    Que texto lindo Anna, delicado e necessário! “A revolução do afeto” nos lembra que as maiores transformações sociais não nascem de discurso distantes, mas do calor humano, da partilha e da valorização das nossas raízes. A forma como o artigo conecta a riqueza cultural do Pará com a realidade da periferia, destacando a arte como ponte e o afeto como motor, é simplesmente inspiradora. É uma leitura que aquece o coração e nos convida a olhar para a nossa própria cultura com mais amor e orgulho. Parabéns por traduzir em palavras um movimento tão potente e acolhedor! Que Deus te abençoe 🙌🏻
  • F
    Fabianna MouraMarço 2026
    Parabéns pelo belíssimo texto. Explanação riquíssima de detalhes e contextualizando muito bem a cultura. Parabéns Anna
  • J
    Junior FonsecaMarço 2026
    Parabéns pelo artigo! Muito bem escrito e interessante.
  • C
    Claudia SidonioMarço 2026
    É impossível não comentar um texto com toda essa riqueza de diversidade cultural descrita. É lindo como a autora retrata tradições e culturas tão marcantes e valoriza a identidade do povo paraense, nos levando a respeitar e conhecer o Pará. Parabéns ao OCAS ONG e a autora Anna Clara.
  • J
    JacquelineMarço 2026
    Parabéns pelo artigo. Deus abençoe!
  • J
    João CarlosMarço 2026
    Muito orgulhoso dessa amiga bem mais do que talentosa, parabéns anna❤️
  • H
    Henrique GabrielMarço 2026
    Parabéns pelo artigo! A forma como você valoriza a cultura ribeirinha e conecta arte, ancestralidade e transformação social é muito marcante. A referência a Liniker e Arthur Schopenhauer enriquece ainda mais o texto, que transmite sensibilidade, identidade e um olhar necessário sobre o Brasil profundo. Admirável iniciativa da OCAS e de todos os envolvidos.
  • M
    Marta PintoMarço 2026
    A cada tema, o Ocas vai se superando ; o afeto , mais especificamente a hospitalidade, é uma característica dos Nortistas! Precisava ser falado sobre , e vc foi mais uma vez perfeita !
  • J
    Jadilson nevesMarço 2026
    Mais uma brilhante explanação concatenada e coerente. Com tal imatura idade revelando equlibrio, sensatez e acima de tudo levando ao conhecimento público o que acontece nos bastidores do nosso mundo. parabéns, o céu é o limite!!
  • M
    Maria Eduarda CunhaMarço 2026
    Maior orgulho da minha princesa,amei seu artigo!❤️
  • A
    Ana CecíliaMarço 2026
    Parabéns pelo artigo! A forma como você conecta cultura, afeto e transformação social é muito bonita. A inspiração em Liniker e Arthur Schopenhauer enriquece ainda mais o texto, que transmite uma mensagem forte e necessária
  • A
    Ana CecíliaMarço 2026
    Parabéns pelo artigo! A forma como você conecta cultura, afeto e transformação social é muito bonita. A inspiração em Liniker e Arthur Schopenhauer enriquece ainda mais o texto, que transmite uma mensagem forte e necessária
  • N
    Noronha JuniorMarço 2026
    Simplesmente espetacular, parabéns a OCAS pelo projeto mais uma vez revolucionário, e a essa autora tão talentosa deixo minha profunda admiração.